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Inteligência Artificial

Por onde começar com IA quando você não é da área

Sem jargão e sem futurologia. O caminho prático de quem escreveu a primeira linha de código aos 9 anos e já viu cinco revoluções prometerem o fim de tudo.

Por Samuel Toledo · · 6 min de leitura

A maior parte do que se escreve sobre inteligência artificial hoje serve para uma coisa só: fazer quem lê se sentir atrasado.

É jargão, é sigla, é promessa de revolução, é ameaça de desemprego. Você termina de ler mais ansioso do que começou — e sem saber o que fazer na segunda-feira de manhã.

Este texto é o contrário disso. Não tem futurologia, não tem termo técnico que eu não vá explicar, e ele termina com uma coisa concreta para você fazer hoje.

Primeiro, o que essa ferramenta é

Vou pular a definição acadêmica e dar a que funciona na prática.

Pense num estagiário absolutamente brilhante, que leu praticamente tudo o que já foi escrito, escreve muito bem, trabalha instantaneamente e nunca reclama. E que tem exatamente três defeitos, sempre os mesmos:

  • Não sabe nada sobre a sua empresa, o seu cliente ou o seu contexto — a não ser o que você contar.
  • Prefere responder errado a dizer “não sei”. Quando não tem a informação, ele inventa com a maior segurança do mundo.
  • Não lembra de ontem, a menos que você recomece o assunto.

Se você tratar a ferramenta como um oráculo, vai se decepcionar e provavelmente vai se dar mal. Se tratar como esse estagiário — brilhante, rápido, mas que precisa de instrução clara e de revisão —, ela vira uma das coisas mais úteis que já apareceram na sua vida profissional.

A ferramenta não substitui a sua cabeça. Ela substitui o tempo que a sua cabeça gastava com trabalho braçal.

Por onde começar: a tarefa, não a tecnologia

O erro número um de quem tenta começar é começar pela ferramenta: assistir vídeos, comparar aplicativos, procurar “a melhor IA”. Isso é pesquisa infinita e não produz nada.

Comece pelo outro lado. Pegue uma folha e escreva as tarefas da sua semana que:

  • se repetem toda semana;
  • consomem tempo;
  • não exigem julgamento profundo nem responsabilidade legal;
  • você não gosta de fazer.

Escrever a primeira versão de um e-mail difícil. Resumir uma reunião longa. Transformar anotações bagunçadas em um texto organizado. Criar dez variações de um título. Explicar um assunto técnico para um cliente leigo. Organizar uma lista solta em uma tabela.

Escolha uma dessa lista. Só uma. É por ela que você começa.

Como pedir: as quatro partes de um bom pedido

Aqui está a diferença entre quem acha a ferramenta genial e quem acha que ela é uma decepção. Não é a ferramenta. É o pedido.

Um pedido ruim: “escreva um e-mail para o meu cliente”. O resultado vai ser genérico, sem alma e inútil — porque a pergunta foi genérica.

Um pedido bom tem quatro partes, e você não precisa decorar nada além disto:

1. Papel. Diga quem ele deve ser. “Você é um consultor financeiro que escreve de forma simples, para pessoas sem formação na área.”

2. Contexto. Tudo o que ele não teria como saber. Quem é o cliente, o que já aconteceu antes, qual é a situação, o que não pode ser dito. Esta é a parte que quase todo mundo pula, e é a que mais muda o resultado.

3. Tarefa. O que exatamente você quer, com o formato e o tamanho. “Escreva três versões, cada uma com no máximo 150 palavras, em tom cordial mas firme.”

4. Exemplo. Se você tem um texto seu que ficou bom, cole junto e diga: “siga este estilo”. Um exemplo vale mais que dez adjetivos.

E depois — isto é importante — converse. A primeira resposta é rascunho, não entrega. “Ficou formal demais.” “Tira o último parágrafo.” “Escreve como se fosse para o meu tio.” É no terceiro ou quarto ajuste que a coisa fica boa.

As três regras que evitam problema sério

Trabalho com tecnologia há mais de quarenta anos, e a parte que mais me preocupa hoje não é o que a ferramenta faz. É o uso descuidado dela. Três regras, e nenhuma é negociável.

Confira tudo o que for verificável. Nome, número, data, lei, referência, citação. A ferramenta inventa com uma confiança impressionante, e o texto inventado é indistinguível do verdadeiro. Se você vai assinar embaixo, você confere.

Não coloque o que não pode vazar. Dado de cliente, informação confidencial da empresa, documento sigiloso, dado pessoal de terceiros. Trate a caixa de texto como uma sala com gente ouvindo. Muita empresa já tem política sobre isso — descubra a da sua antes, não depois.

A responsabilidade continua sendo sua. Assinou, é seu. Não existe “a IA que escreveu” como defesa em nenhuma reunião, em nenhum contrato e em nenhum tribunal.

Um plano de duas semanas

Concreto, sem enrolação, e cabe em quinze minutos por dia.

Semana 1 — aquela única tarefa. Todo dia, use a ferramenta na tarefa que você escolheu. Só nela. Vá ajustando o pedido usando as quatro partes acima. Guarde num arquivo os pedidos que funcionaram — isso vira o seu repertório, e ele é mais valioso do que qualquer curso.

Semana 2 — meça e amplie. Anote quanto tempo aquela tarefa levava antes e quanto leva agora. Só então escolha a segunda tarefa e repita o processo.

Ao fim de duas semanas você vai ter uma coisa que quase ninguém tem: não opinião sobre inteligência artificial, mas experiência prática de onde ela ajuda e onde ela atrapalha no seu trabalho específico. Isso não se compra em curso nenhum, e é exatamente o que vai te diferenciar.

O que eu diria para quem tem medo de ter perdido o bonde

Não perdeu. E eu digo isso com alguma propriedade sobre começar tarde: sou o primeiro de três irmãos numa família sem dinheiro, comecei a trabalhar aos 8 anos, iniciei cinco faculdades e não terminei nenhuma. A que eu curso hoje, aos 54, é Ciência de Dados — e eu só entrei porque meu filho de 20 anos só aceitou fazer faculdade se eu fizesse junto.

Sento na mesma sala que gente com um terço da minha idade. É desconfortável em algumas aulas. E é, de longe, a melhor decisão profissional que eu tomei nos últimos dez anos.

Existe uma vantagem enorme que ninguém comenta: quem tem experiência de vida e de profissão usa essas ferramentas muito melhor. Porque saber perguntar exige repertório, e perceber quando a resposta está errada exige bagagem. Um jovem aprende a mexer mais rápido. Você julga melhor o resultado — e é o julgamento que o mercado paga.

A vergonha de ser iniciante dura algumas semanas. O atraso de não ter começado dura anos.

O primeiro passo, agora

Feche este texto. Abra qualquer uma das ferramentas gratuitas disponíveis. E faça um único pedido, usando as quatro partes:

“Você é um especialista em [a sua área]. Eu trabalho com [o que você faz] e toda semana preciso [a tarefa chata]. Escreva uma primeira versão disso, com no máximo X palavras, em tom [como você fala]. Aqui está um exemplo do meu estilo: [cole algo seu].”

Vai ficar mais ou menos. Ajuste. Peça de novo. E de novo.

Na décima vez, você vai ter entendido mais sobre inteligência artificial do que em cem vídeos assistidos — e vai ter economizado a primeira hora de muitas que virão.

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